2017-09-13

Dantes é que era

Antigamente é que isto era bom. No meio do spam discutia-se tudo e coisa nenhuma. É uma das vantagens da experiência. Com o tempo percebemos onde vale a pena empregarmos o nosso tempo. Sempre com conta, peso e medida, porque nos lembramos de todo o tempo que fomos desperdiçando ao longo da vida. Numa busca incessante pelo tempo que já passou, só perdemos tempo com nostalgias do estilo "no meu tempo é que era bom", esquecendo que o nosso tempo ainda não acabou... (https://groups.google.com/forum/#!forum/pt.conversa)

2017-08-20

Veneno social

As chamadas redes sociais são um espelho da sociedade que as criou e as utiliza. Um espelho algo deformado que amplia alguns aspectos, em detrimento de outros. Não há animal algum que não se sinta ofendido por isto ou por aquilo que se encontra nas redes. E o mesmo animal, por isso, sente-se no direito de ofender, acreditando claramente que dois erros anulam-se ou criam algo de bom. As figuras mais ou menos públicas ou não chegaram a embarcar nesta barca, temendo pela exposição cibernáutica, que atrai os necrófagos daquele mundo e deste, ou começam a pôr na moda a necessidade de se afastarem para não se sujarem com a porcaria que lhes atiram. A imundície que vem ao de cima no tráfego de informação que a Internet e, mais recentemente, as redes sociais permitem, não é novidade. Desde sempre que o anonimato, ou a sensação de não ser apanhado, permitiu que alguns fossem valentes, uma vez que nunca necessitam de provar a sua valentia. O conforto da protecção oferecida pela distância física aos alvos, potencia o confronto e digitaliza o clássico agarrem-me se não vou-me a ele(a). E isto permite qualquer tipo de assédio e de linchamento popular. Logo agora que o popular foi convertido em viral. E tal como os vírus que se multiplicam exponencialmente, também estas viroses nada trazem de saudável. Este caldo, cozinhado pela sociedade de utilizadores, envenena a rede social. E esta última, envenena a sociedade em geral, numa realimentação positiva, com efeitos tão negativos. Espaços que poderiam ser usados para troca de informação e de ideias salutares, onde é possível concentrar-nos mais no conteúdo do que no autor, são um autêntico desperdício de largura de banda. O insulto e a falta de respeito tornam-se a norma, expulsando os mais válidos para outras praças. Quem sabe filtrar o que lhes faz bem, sai de perto das fontes de poluição, tal como se faz no mundo real. Mas a realidade é que o Homem deixado sem controlo, comporta-se como o animal irracional que é. Endosso desde já as minhas desculpas a todos os outros animais irracionais que, mesmo não lendo, compreendem-nos o suficiente para de nós se afastarem...

2017-07-17

A lotaria do regloscópio

Não há inspecções verdadeiramente independentes, quando há possibilidade de escolha da entidade inspectora. Por mais que as normas exijam separação entre a produção e o lucro, não conheço entidade alguma que não exista para fazer dinheiro. Mesmo as que conseguem obter a designação de serem sem fins lucrativos, necessitam de dinheiro para viver. E se há instituições sem fins lucrativos que lucram muito mais do que as outras... Este intróito já terá preparado o leitor para o que aí vem. Mas nem por isso. Não é este o tema central, apesar de associado. Discorro sobre a impossibilidade de indiscernibilidade entre entidades e, até mesmo, dos próprias centros de uma mesma entidade. Porque cada entidade é uma entidade. E cada centro é um centro. E, obviamente, cada inspector é um inspector. Não quero dizer com isto que uns são corruptos e outros não. Vou aqui assumir que todos estão de boa fé neste ramo. Com a vontade de moralizar o sector e arrecadar mais algum, o Estado permitiu a abertura de novos centros. Aproveitou e acenou com uma nova área de inspecções: a categoria L. Entretanto descobriu-se que a categoria L não iria cobrir os motociclos de baixa cilindrada, deixando de parte a esmagadora maioria dos veículos de duas rodas. Arrisco até a dizer que deixou de lado os veículos de duas rodas mais poluentes, descuidados, degradados e alterados. Enquanto as entidades esperam pelas novas inspecções, vão aproveitando a actualização extraordinária dos preços das inspecções, que tinham ficado durante anos congeladas, não se percebe bem porquê. Os inspectores aguardam pela formação e alguns foram tirar a carta de condução de categoria A (ficarão motards experientes num ápice, prontos a dominar as motas mais potentes e pesadas). No meio da parafernália de equipamentos que cada centro de inspecções tem que possuir, entre os quais alguns que nunca ou muito raramente usa, existe um enigmático que dá pelo nome de regloscópio. Não é mais do que um sistema que permite trazer para perto a projecção dos faróis dos veículos, os quais foram projectados para projectar a luz bem mais longe. Tão simples é o seu princípio e tão complicada tem sido a sua utilização. Sem definição clara e quantificada de valores de aprovação e de reprovação, que variam de veículo para veículo, têm sido usados dependendo do bom senso e da perícia de cada inspector. Uma questão de sorte, que tanto choca com a questão da qualidade. As novas definições estarão para ser aplicadas em breve, cabendo a cada cliente prestar atenção ao trabalho do inspector para confirmar se tudo foi feito correctamente. Como o cliente dificilmente será um especialista na matéria, terá que se contentar com a qualificação dos inspectores e das entidades para esse trabalho. Agora multipliquem isto por todos os ensaios que passarão a ser feitos a apenas alguns dos veículos de duas rodas mais potentes. Isto para não falar nos acidentes e pequenas quedas dos visados, teremos muita sorte se tudo correr sem azares...

2016-03-02

A fé dos infiéis

Fico pasmado com a fé que, os que não acreditam em religião, têm no poder que a religião tem. Parecem acreditar que a palavra desta ou daquela religião deve coincidir com o pensamento destes infiéis. E deve ter um poder tal que leve os fiéis a cumpri-la à risca. Metem na cabeça que, por exemplo, a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) deve impor o uso do preservativo aos seus fiéis, esquecendo que esta já lhes impõe uma moral que torna o preservativo dispensável. Anseiam por sinais de abertura que levem a ICAR a alinhar a sua teologia pela fé ateia. A tal fé que ignora todos os ensinamentos diferentes da sua visão do mundo. Querem ser os salvadores destes pobres de espírito que seguem acefalamente as instruções religiosas esquecendo que, se as seguissem verdadeiramente, não necessitariam de mais salvadores, para além dos oficialmente reconhecidos.

2016-01-21

Leitura de casa-de-banho

Nunca apreciei leituras de casa-de-banho. Nem literal, nem figurativamente. Sempre gostei de reduzir ao mínimo o intervalo de tempo que vai do evacuar do intestino, até ao evacuar do autoclismo. Isto reduz não só o tempo lá gasto, como o tempo para espalhar perfume. Obviamente, gostos não se discutem. E no que respeita a perfumes, nem costumo ter opiniões fortes e bem formadas. Mas cada um gasta tempo no que lhe der mais prazer, se tal for possível. Acredito que o Homem esteja programado para se afastar de excrementos em geral, e dos de humanos em particular. Daí parecer-me natural o afastamento rápido dos locais onde se defeca. Pela quantidade de livros que existem nalgumas casa-de-banho, vejo que, por necessidade, ou por gosto, há quem passe bastante tempo sentado, a ler. Cada um sabe do que mais aprecia ou, neste caso, cheira. Este texto não serve de grande passatempo.

2015-08-23

Só conta o tamanho que está na cabeça

Apesar de nunca ter sido motivo de grande preocupação, confesso que, enquanto adolescente, me preocupava com o tamanho do meu pénis. Obviamente quando em repouso, dado que quando erecto, ficava orgulhoso da alteração substancial da dimensão e não havia comparação. Desconfio que seja um orgulho partilhado pelos adolescentes masculinos. Tal será o fascínio que a observação de tamanha transformação provoca. E nem consigo imaginar o orgulho feminino, aquando da descoberta da capacidade de provocar tamanha transformação... Presumo que as primeiras auto-avaliações ocorram quando confrontados com os corpos nus de outros machos. Nessa época, sentia-me desfavorecido, sem que isso me inibisse de me despir em frente de outrem, quando necessário. No entanto, atendendo que nessas situações não há necessidade de impressionar seja quem for, não me impressionava. Por um lado, em repouso, o tamanho é praticamente inútil. Por outro lado, em situações de balneário, o sangue tinha sido canalizado para outras zonas do corpo, onde é mais útil. Nem os duches frios me intimidam ou envergonham. Depois do início da vida sexual (a dois), a confiança aumentou ainda mais. Não só porque tenho dedos mais pequenos e, ao mesmo tempo, mais competentes na produção do prazer feminino. E também porque o intervalo de tempo para a produção do tal prazer, sempre me pareceu absolutamente díspar relativamente à do prazer masculino. Passei a concentrar-me no tempo e na habilidade. Quem estuda estes assuntos, sabe que o cerne da questão do prazer feminino está logo à entrada. Quer literalmente, quer figurativamente. Quer espacialmente, quer temporalmente. Um mau começo, que tanto pode ser demasiado apressado, como desastrado, impede um bom desenvolvimento e acaba mal. As mulheres são ao mesmo tempo as melhores juízas e as piores auditoras. Avaliam como só elas sabem avaliar, mas só transmitem essa avaliação como só elas sabem transmitir: ou seja, objectivamente, pouco dizem. Ao não indicarem o que deve ser melhorado, privam-se e privam os parceiros das oportunidades de melhoria que daí poderiam vir. Em compensação, não beliscam a auto-estima do parceiro, ainda que a própria não melhore com esta atitude. Obviamente farão as suas avaliações, dificilmente imparciais, de acordo com a experiência que tiverem. E deixam apenas transparecer as avaliações favoráveis. A não ser que tenham um castigo escondido para aplicar. E como reconhecimento que o processo da excitação feminina é muito mais complexo do que o masculino, só agora se apresentou um medicamento como o análogo feminino do Sildenafil (mais conhecido comercialmente como Viagra). Porque esta excitação não é tão mecanizada e é muito mais mentalmente elaborada. E se uma mulher estiver convencida que o tamanho é fundamental, dificilmente se conseguirá tirar-lhe isso da cabeça...

2015-07-26

Desespero esperando

À espera de outrem, desencontram-nos. Procuramos noutro lugar o que não encontramos aqui e agora. O desassossego da espera desconcentra-nos do mais importante. Eu. Tu. A não ser que esteja à espera de ti. E tu não me procures. Procuras ele. O outro. O desassossego do desencontro não permite a direcção correcta do foco. Desisto de ti. De nós, logo de mim também. Parto em busca de um novo fado. Que não provoque enfado. Prossegues a tua busca. Certamente melhor do que eu, saberás o que pretendes para ti. Para nós. Um nós repleto de afastamento. Cada um na sua extremidade, ainda que possamos passar próximo. Um caminho entre nós que não será mais percorrido. Cabe ao passado guardar esses passos infrutíferos. E assim deve ficar.

2015-07-12

Desprendimento fatal

Não há admiração em não ter a certeza do teu sentimento. Quando o desejo é forte, encontra em todas as palavras a confirmação do que quer ver, ouvir e ler. E isso tolda a compreensão de tudo o que vejo, oiço e leio. A tentativa de compensar leva a ignorar os sinais, para não ser iludido pelo desejo. Tentando adormecer a excitação que me assalta, dizendo-lhe que nada de concreto se passa. Que se trata de uma miragem e não da fonte onde poderei matar esta sede que me consome. É ridículo e desnecessário prender-te. Ridículo porque amarra alguma que eu inventasse, poderia prender-te a mim, contra a tua vontade. Desnecessário pois não faria sentido que ficasses presa a mim, sem perceberes e aceitares esse lugar como teu. E ficas tão bem livre, como precisas e desejas... Como um felídeo, a tua vontade é forte e impera. E não sentes qualquer impulso cego de obediência e fidelidade. Faz parte do teu fascínio e torna-te fatal. Penso que terá sido num filme que ouvi uma personagem dizer a outra, à beira de se casar: o difícil não é dizer que sim a uma mulher para o resto da vida. É dizer que não a todas as outras. E isso resume toda a dificuldade que os homens, mas não só, têm perante tamanho compromisso. Sendo tu portadora desse halo que ofusca todas as outras, como posso dizer que sim a outra, enquanto não receber o teu não, conclusivamente categórico? Sabendo isto, como pode ela ousar sequer tentar desalojar-te do meu coração?

2015-07-09

Requiem próprio

Porque vivemos numa cultura que enfrenta a morte de alguém que nos é próximo com tanto luto e dor? Choramos por quem parte desta vida ou por nós próprios e pelo sentimento de perda que nos provoca? Até as pessoas mais religiosas que acreditam que quando morremos, partimos para outra etapa na vida da nossa alma, parecem não encontrar nisso consolo suficiente. Se a falta de consolo for motivada por egoísmo ou pela negação do acontecimento, ainda haverá desculpa. Creio que poderá também resultar de uma fé abalável. Falta-nos um espírito que aceite aquilo que é. Isto, independentemente da nossa concordância ou gosto. O sofrimento resulta da confrontação entre o que desejávamos que fosse e o que na realidade é. E o que é, por evidente força maior, em caso de morte, não pode ser alterado. E não adianta pensar como seria se tivesse sido de outra forma. Não foi. Não vale a pena gastar recursos em cenários hipotéticos impossíveis de alcançar. Por maior que seja a nossa vontade. E ainda que se trate de uma morte anunciada com prazo marcado, a dor não parece ser reduzida pela capacidade de planeamento. Talvez até piore pois há a tendência para imaginar como será. A morte está anunciada desde o início para todos os seres vivos. Temos mais que tempo para nos preparar para o inevitável. Devemos aumentar o prazo naquilo que estiver ao nosso alcance e não nos martirizar com o resultado daquilo que de nós não depende. Tão simples e tão difícil de implementar. Quando a altura chegar, foquemo-nos nos sentimentos positivos. Não deixemos o nosso egoísmo vencer e aproveitemos todos os momentos para conviver com os que nos são próximos. E com os outros também. Depois, não adiantará chorar. Só se for para desabafar.

2015-07-02

Adiamento temporário

Como pudeste pedir-me que te confessasse o inconfessável? Nada me fez prever.
Que fazes após tal confissão? Confesso que nada esperava que fizesses.
Ficas excitada por seres o objecto desta prosa ardente? O ego promete.
Relembras o passado com emoção? Emociono-me só a pensar nisso.
Acende-se o desejo já esquecido? Uma fagulha quase apagada.
Retiras o projecto do fundo da gaveta? Um esboço a suplicar retoques.
Podemos adiar o coração? Não devemos, mas podemos.
Por quanto tempo? Não sabemos.

2015-06-16

Objectivamente inalcançável

Uma meta inalcançável.
Um projecto inacabável.
Um combate amável.
Um plano descartável.

Uma rota intraçável.
Um destino contornável.
Um combate abandonável.
Um projéctil desviável.

Uma contenda abalável.
Um casamento inconsumável.
Um foco inconcentrável.

Uma parceria inaceitável.
Um investimento inviável.
Um percurso aceitável?

2015-06-14

Como as massas

Moldamos as redes sociais com os nossos gostos e acções. E nisso não há mal algum.
Subrepticiamente, elas moldam a apresentação de conteúdos às nossas expectativas. E isto não é novidade. Daí a massificação noutras vertentes das nossas vidas.
Os humanos carecem de atenção e de aceitação. Estar contra a corrente é desconfortável e consome demasiada energia. Os algoritmos tendem a dar-nos o que pedimos e desejamos. Naturalmente sugerem-nos o que já preferimos e ocultam-nos o que não gostamos ou nem sequer conhecemos. Reforçam-nos as convicções e não nos expõem ao contraditório. Agrupam-nos por interesses e gostos. Separam-nos dos outros e tentam reforçar os laços entre nós.
Se só por acção dos outros meios de informação e das redes humanas este efeito de massificação já era notável, imaginem como passará a ser dentro de pouco tempo com esta manipulação cada vez mais omnipresente e omnisciente...

2015-05-24

O conforto (dos) ordinário(s)

Uma coisa que habitualmente conforta o mais ordinário dos mortais, é o facto de poder distinguir claramente os bons dos maus. Isto facilita o exercício mental de etiquetar o outro. E favorece a separação entre bons (ele próprio e os respectivos) e os maus (todos os outros). Assim, quando observa comportamentos que reprova, gosta de identificar e associar aos outros, características que possibilitem a generalização. A generalização é uma forma de facilitar o pensamento, diminuindo o grau de abstracção.
Outro facto que costuma confortar estes sujeitos é, havendo uma ausência de regras morais, seguir uma regra mais simples: só prevaricar quando julgar escapar impune.
Apesar da dificuldade que a realidade possa causar ao não permitir maniqueísmos, talvez a identificação com as pessoas e com a situação venha em auxílio destes ordinários, reconfortando-os. Se ele estivesse lá, teria feito a mesma coisa.

Vídeo do Correio da Manhã

2015-05-18

A bela em cima do monstro

Aprecio a forma desajeitada como a modelo se sentou para a foto. Agarrou-se ao depósito, enquanto tenta manter as pernas juntas, de forma pudica. Pudica, pois aquele vestido curto espera que aqueles joelhos se afastem, para mostrar à objectiva da câmara a roupa interior inferior da modelo. Inferior apenas na localização, certamente.
Desajeitada, pois não é assim que se senta quem quiser domar toda a potência daquela máquina. Não é um cavalo que uma dama possa montar, mantendo ambas as pernas dependuradas para o mesmo lado. Apenas um dos sapatos de salto alto encontrou o poisa-pés correcto para se apoiar. O outro ficou pendurado. O do pendura fica demasiado afastado.
Independentemente da posição instável, e até talvez por ela mesma, é o sorriso divertido da bela que mais cativa. Ela que se segura para não cair, ainda que o monstro esteja imóvel.
Como é da praxe, numa máquina de desejo italiana, a cor do monstro só podia ser vermelha viva.
Devem agora compreender qual seria o monstro que eu desejo apresentar agora à minha bela...


(imagem da revista Auto Foco aquando da apresentação da Ducati Monster 1200 S no Salão de Milão de 2013)

2015-04-30

Quando me apagar

Independentemente do mérito da imortalidade da obra de cada um, interrogo-me o que acontecerá a tudo aquilo que deixarmos publicado na Internet antes de morrermos realmente. Virtualmente poderá manter-se online durante muito mais tempo. Quem terá acesso, posterior ao nosso desaparecimento, às contas nos blogs, redes sociais, etc. que temos espalhadas pelo ciberespaço? Quem conseguirá decifrar as palavras-passe que garantem a segurança contra a utilização das nossas contas por terceiros? E quereremos que as decifrem? ou que as liquidem de vez?
Para além disso, há os contactos virtuais que se estabelecem. E muitos nunca passam disso mesmo. De virtuais. Como poderão distinguir a ausência por desinteresse, ou por outros interesses, da ausência por motivos de força maior? Por razões que não dão hipótese de contestação?
Quem se aperceberá deste grande apagão? Quais dos amigos reais conhecem plenamente a dimensão virtual deste eu? Do meu autor? Haverá possibilidade de deixar em testamento a nossa dimensão virtual? Ou, nem que seja virtualmente, haverá lugar a enterro?
Lápide alguma marcará este final.

Inconfessável

Calo o que sinto, pois não o posso partilhar. Nem contigo, nem com outra, o que ainda está em brasa dentro do meu coração. Sei que posso contar contigo, pois nada me perguntarás. Talvez com medo de reacenderes este vulcão adormecido. Cuja fúria já vislumbraste. Cujo poder já desejaste. E não mais o quererás, de tal forma incontrolável e ilógico ele surge.
De que adianta tanto poder se não for controlável? Só nos poderá magoar, se não nos deixar felizes para sempre. E sempre, é o tempo que este sentimento amordaçado parece ter. E se, para sempre, tiver que ficar no meu peito prisioneiro, assim será. A última coisa que desejo é voltar a magoar-te.
Magoar-me não me assusta. Por isso não fujo de ti a sete pés. Já no passado fugi e de nada me serviu.
Tenho que domar o indomável.
Tive que confessar o inconfessável.

2015-04-29

Dadas as listas de base

As bases de dados estão cada vez mais presentes nas nossas vidas. Aceitamos quase sem pensar em ceder os nossos dados, que ficarão compilados em listas.
Talvez por isso abracemos com agrado a constituição de novas listas. Torcemos o nariz às listas VIP, talvez por temermos ficar excluídos. Mas a constituição de listas que marquem terceiros para nossa conveniência, é recebida de braços abertos. Independentemente da Constituição.
Hoje pugnamos pela lista pública dos pedófilos, para salvaguardar as nossas crianças.
Amanhã pugnaremos pela lista pública dos homicidas, para salvaguardar as nossas vidas.
Depois, certamente, pela lista pública dos gatunos, para salvaguardar os nossos bens materiais.
Publique-se!

2015-04-26

A luz que retraça a traça

A traça é atraída pela luz. Fica cega com o brilho. Queimada com o calor. A cegueira é tal que só dá pelas queimaduras tarde demais. Quando já estiver perdida.
Tal como qualquer corpo é atraído, pela força da gravidade, para um buraco negro, a traça dirige-se para a sua perdição. Antes mesmo do buraco negro acabar por destruir o corpo pelo esmagamento, já o desfez vítima do poderoso gradiente da dita força. O corpo acelera em direcção ao buraco negro, completamente dilacerado. E dilacerado se esborrachará, não mais escapando ao poder gravitacional do buraco negro. Se nem a luz lhe escapa...
E perdida e desorientada, choca e afasta-se da luz. Num bailado de perdição e embriaguez inexplicável para quem não sofre a mesma atracção pela luz.
E quando as queimaduras acabam por impedi-la de voar, esvoaça até no chão se estatelar. Retida pela força da gravidade, definitivamente afastada daquela luz que a queimou.
Mas será que a traça, mesmo sabendo que a luz seria a sua perdição, resistiria a aproximar-se tanto da luz que a iluminava?

2015-04-21

Somente mais uma vez

Fizeste-me teu sem licença
Cativaste-me com o teu olhar
Anseio pelo teu potente tocar
Eclipsaste a indiferença

Já não mais me toco sem te tocar
Rogo-te mais tempo num abraço
Sinto-me apertado num laço
Donde não consigo desembaraçar

Devolvo-te o sorriso que pregaste
Na minha cara embevecida pela tua
Quando da vida banal me salvaste

Salvas-te a ti mesma com amor
Espero-te ver em breve na Lua
Esqueço-me de um final com dor

2015-04-16

Querer e poder

Pede-me o que quiseres e dar-te-ei o que puder. Façamos tudo o que melhor nos aprouver. Consensualmente unidos pelo prazer. Ousemos sonhar sem que os transformemos em pesadelos. De forma controlada, descontrolemo-nos.

2015-04-12

Por ti e/ou por mim

Nem sempre é fácil perceber a causa de um sentimento. Algumas vezes desejamos a uma pessoa especial, algo mais motivado por nós, do que por pensamentos e desejos puros sobre essa pessoa. E nem sempre é fácil descortinar onde começa o nosso desejo egoísta e onde acabam os votos sinceros do melhor para ela. Dir-se-ia que não é fácil ter uma opinião desinteressada da situação. Esquecermo-nos de nós próprios e pensar exclusivamente no melhor para o(s) outro(s). Somos parte interessada. E desse interesse não nos desprendemos. Quando alguém nos diz que será de uma maneira e não da que desejamos, muitas vezes, dependendo do tamanho do desejo, acabamos por arranjar interpretações divergentes. Mesmo quando a situação é posta de forma clara e sem ambiguidades, procuramos discursos escondidos que satisfaçam o nosso desejo. Queremos tornear a realidade de maneira a encaixá-la no projecto que a nossa mente projectou, contra a própria realidade. E, por mais forte que o desejo possa ser, nada supera a realidade. Podemos e devemos tentar moldá-la. Mas nada podemos fazer se o desejo do outro entrar em rota de colisão com o nosso. Nada, talvez seja um exagero. Afinal somos livres de projectar a nossa participação, mesmo acabando por não ser convidados para a execução...

2015-04-06

Por fim, enfim, o fim novamente

A inevitabilidade do fim, não deve intrometer-se no desfrutar do presente. Sob pena de antecipar o primeiro, ao destruir o segundo. Por mais anticorpos que se criem, não podemos permitir-nos a que destruam qualquer possibilidade de novo lampejo de felicidade. Felicidade que por mais efémera que possa ser, tudo merece e tudo faz por merecer. O(s) outro(s) não podem partir com uma desvantagem tão grande como a que os antecedentes semearam. Devemos ser-lhes leais e permitir-lhes o benefício da dúvida. E ele(s) agradece(m) a todos os precedentes pelo presente que deixaram, ao partirem para o passado. Um ciclo fecha-se, dando espaço e tempo para que outro se abra. Não interessa com quem. Interessa isso sim que se parta de espírito aberto às novas possibilidades. O quando, o quem, o como, o porquê, o quanto, irão respondidas a pouco e pouco. Ainda que nunca de forma definitiva. Definitiva apenas enquanto durar. E enquanto durar, é o tempo bastante para amar. E quando o fim chegar, esse marco inevitável, saberemos o que fizemos. E ficaremos tanto mais felizes quanto mais de nós tivermos investido. Pois só o investimento produtivo gera lucro. Lucro que torna o futuro mais auspicioso. E quando o fim, por fim, for mesmo o último dos finais, é importante que tenhamos vivido o mais felizes possível até aí.

2015-04-05

Páscoa

E se, por capricho de uma sucessão de eventos, formos repentinamente confrontados com uma (boa) parte do nosso passado. Estaremos prontos para com ele fazer as pazes? A renovação tem que ser compatível com o passado. Apesar da história tender a repetir-se, usualmente não se repete com os mesmos intervenientes. Mas ajuda ao desenvolvimento, perceber quais os erros cometidos e como evitar repeti-los. Parece ser de implementação fácil, mas na realidade, e em especial no domínio sentimental, a razão pode ficar com uma visão demasiado turva. Especialmente se os eventos forem recentes. E a fulanização em nada ajuda a uma análise correcta. Quando a relação com o passado está arrumada e em paz, menos perturbações são expectáveis no futuro. Ainda assim alguma atenção deve ser dada à análise dos erros. Em descobrir as suas causas verdadeiras e não se ficar apenas pelas aparentes. As acções preventivas são preferíveis às correctivas. Destas as mais difíceis são as que vão contra o sujeito que as tenta implementar. Seja quais forem as razões, o sujeito tende a agir da mesma forma perante situações semelhantes. Por muito monótono que isso possa parecer, a aleatoriedade não é propriamente uma característica humana. E é o modo de agir que urge alterar. Isto tratando-se de um erro, claro está. No que está certo, muda-se menos. A Quaresma, como qualquer outro período de preparação, é essencial para melhor preparar a tal passagem necessária. Aquela que nos salvará dos erros passados. Isto se houver salvação...

2015-03-17

Súbito óbito

As relações não morrem subitamente. Vão morrendo lentamente às mãos dos intervenientes. Tal como os cigarros não matam imediatamente o fumador, são os pensamentos, palavras, actos e omissões dos cúmplices culpados, que o levam à agonia final. E não é preciso que fumem vários maços por dia. Basta-lhes deixar a dose venenosa subir lentamente ao longo do tempo. Não fazendo desintoxicações regulares, o veneno acumula-se e provoca sintomas. Os quais podem ser ignorados ou observados, desde que ao outro imputados. A não aceitação do outro tal como ele é, é um veneno poderoso. Ainda que administrado em pequenas quantidades, acaba por ter um resultado inexorável, a longo prazo. Ao contrário de uma dose elevada logo no início, que impossibilite sequer o início da ligação. A culpa arrisca-se a ser a única a não morrer solteira, independentemente da opinião dos participantes tentarem casá-la com o outro. Com o oponente. E essa divergência pode tornar-se central. No final, alguém tem que atestar o óbito.

2015-03-12

Curioso desinteresse

Ergues-me com o teu pensamento. Prostras-me com o teu desinteresse. O vazio enche-se com a tua ausência. A liberdade da solidão regressa carregada de nada. E isso traz tudo à memória. Esquecendo o mau e recusando lembrar o bom. Assim é o limbo libertador, recusando o passo em frente. Tolhe o movimento da mudança. Mantém a inércia dos sentimentos. A curiosidade espreita o caminho do outro, sabendo que não o partilhará mais. Desejando aquilo que não mais possui, despojando-se de todo o desejo, cai por terra, desinteressado. E na primeira oportunidade, agarra-a com ambas as mãos, e por momentos tudo é só paixão.

2015-02-27

Infantilidade política

Muito se tem falado sobre as declarações do líder da oposição, as quais, como líder da oposição, neste país, só poderiam ser de «denegrição» do trabalho dos governantes. Por outro lado, os apoiantes da governação entoam um coro de gozo com as referidas palavras. E nem os apoiantes do primeiro, nem os apoiantes dos segundos, parecem perceber o ridículo da situação. A oposição não deve ser feita apenas pela negativa, tentando passar por negativo da governação. E a governação deveria ter mais motivos de regozijo do que apontar aparentes contradições na oposição. Ninguém parece ver que este acentuar da negativa impede qualquer solução razoável para os verdadeiros problemas. E cada vez mais faz ver que não vale a pena haver centenas de deputados se apenas servem como coro dos respectivos líderes, sem qualquer sentido crítico. Para câmaras de ressonância ocas, já bastam os aparelhos dos partidos.

2015-02-18

(Des)amar(rar)

    Não consegui libertar-te das amarras.
Provavelmente porque não me desamarrei.
Ou talvez por impossível ser.
As amarras de ti fazem parte.
Cortá-las seria castrar-te.
Pedaços de ti perderias.
Não mais inteira serias.
Mesmo quando te sentes
por elas oprimida,
não poderás ceder.
Ainda que desapoiada,
acabas por prevalecer.
Por o desânimo vencer.
Perdoa por não te ter animado.
Por não estar ao teu lado, amarrado.
Pois por ti e contigo estava amarrado.
E quando me libertei, não te ter levado.
    Para onde? Não sei, mas para algum outro lado.

2015-02-15

Provicianismo sexual

Com entradas a 14 € (individual) e 24 € (para casal) e num fim de semana de Carnaval e com o dia de S. Valentim a juntar-se à festa, realizou-se mais um festival erótico em Lisboa. Não desejo que tenha sido um fracasso, mas aborrece-me ouvir banalidades provincianas sobre supostos visitantes provincianos. Não sei se, talvez levados por emoções sadomasoquistas, ouvi numa reportagem tanto expositores/artistas e visitantes a queixarem-se que os portugueses são muito inibidos e têm muitos tabus. Parecem ver muito e comprar pouco. Não têm particular interesse em comprar brinquedos sexuais ou em participar nos espectáculos, nem que seja apenas como público entusiasta. Pela cabeça destes comentadores parciais não passou que a vida económica não está particularmente fácil. E os preços não parecem ser particularmente acessíveis (a somar ao preço da entrada, há que acrescentar os preços dos espectáculos privados e dos objectos e roupas à venda no certame). Também não passou que os portugueses não sejam grandes adeptos deste estilo de sexo. Como se ao sexo fossem imprescindíveis o uso de brinquedos e de conjuntos de fantasia. E, talvez acima de tudo, transformar um acto privado numa actividade pública. Não sei se intoxicados pelas 50 tonalidades cinzentas, vêem a vida sexual portuguesa como pouco colorida. E talvez até seja conservadora, tal como eu. Mas não consigo ver nisso uma vida sexual insatisfatória. Pelo contrário. Até consigo ver na necessidade do uso de brinquedos e conjuntos de fantasia como uma forma de tentar tornar satisfatória uma vida que não o é.

2015-02-14

Nem namorado, nem encalhado

Neste mundo cada vez mais globalizado e, consequentemente, mais massificado, a pressão dos pares sobre os ímpares é grande. E muitos ímpares tentam libertar-se, devolvendo a pressão sobre os pares. Na realidade acabam por pressionar muito mais os seus pares do que os outros. E embarcam em reacções, tais cães de Pavlov, após sentirem o estímulo. Numa sociedade onde vale cada vez mais o ter do que o ser, o apelo ao consumo é quase esmagador. E qualquer dia pode funcionar como uma boa desculpa para apelar ao consumo, de forma mais ou menos despudorada. E podendo vender aos pares, os apelos valem a dobrar. Não sendo auto-suficientes, trocamos o nosso pão-por-Deus pela travessura ou gostosura. Curiosamente, até trocamos a própria língua. Importamos necessidades e esquecemos tradições numa evolução em direcção à alienação. Compramos o apaziguamento para um dia, esperando que transborde para todos os outros. E quem a este rebanho não se juntar, mais do que ovelha negra, mais ímpar irá ficar.

2014-11-03

O primeiro bandido

Não me estou a referir (apenas) ao Primeiro-Ministro. Nem a este nem aos precedentes.
O Estado Português, aquela entidade em quem não temos outro remédio a não ser confiar e obedecer, não é uma pessoa de bem. Não sei se com a desculpa de não ser uma pessoa individual, dificultando o apontar de dedo ao culpado mor, usa e abusa da nossa confiança.
Aproveita todos os subterfúgios para subtrair dinheiro aos contribuintes involuntários, ao mesmo tempo que gere de forma (quase) dolosa o tesouro público.
Consegue, recorrendo ao uso de ferramentas informáticas, simultaneamente aumentar a eficiência da máquina fiscal e recusar-se a actualizar avaliações do património imobiliário. Operação que, certamente, qualquer computador conseguiria calcular com facilidade, desde que apetrechado com o programa correcto.
Consegue, ao mesmo tempo que impõe um imposto automóvel exorbitante, calcular um imposto sobre o valor acrescentado que incide também sobre o dito imposto automóvel. Talvez entusiasmado com tamanho valor do primeiro, imputar ao comprador um valor acrescentado que reconhece com o segundo. Malabarismo ao qual recorre noutros impostos. Muitos dos quais que, todos somados, são superiores à outra parcela que paga o produto ou o serviço propriamente dito.
Incumbe outras entidades de cobrar taxas e outras contribuições, algumas aparentemente irrisórias, onde arrecada mais algum valor ao alargar ao máximo a base da contribuição.
Aproveitando o exemplo e para ser compensada por cortes nas transferências da administração central, a local cobra mais uma parafernália de taxas e outras contribuições, nem sempre contribuindo para a percepção do contribuinte que contribui para um bem maior.
Nalguns casos cobra desproporcionadamente por serviços que concessiona a terceiros por valores bem menores, sem apresentar qualquer valor acrescentado pela intermediação efectuada.
Administrativamente, com a cobertura do Estado, cobra tudo o que pode, dando o menos possível como retorno. Imitando perfeitamente o modus operandi do Estado central omnipotente e omnipresente no que toca a extorquir dinheiro aos contribuintes mais desprotegidos, eclipsando-se quando toca a exigir dinheiro aos mais poderosos.
Este estado de coisas envenena a confiança e a economia, acabando por dificultar a execução financeira que tanto presa e pela qual clama, enquanto tenta disfarçar a faceta de bandido agiota.

2014-09-28

Fracasso vocabular

Enquanto que para o fracasso alheio há sempre palavras que chegam e sobram para o caracterizar, normalmente para o meu são poucas. Ou nenhumas.
Mesmo que o fracasso não tenha dependido apenas de mim, a minha quota parte da culpa nunca fica solteira. Desculpar o meu fracasso com o fracasso alheio sempre me pareceu fraco. Muito fraco. E atribui-lo ao azar é aselhice.
Faltam-me adjectivos e desculpas. A falha fulanizada aponta imediatamente um culpado. Um culpado que é preciso punir, sem apelo nem agravo. E ao mesmo tempo sem qualquer julgamento justo.
A justiça, apesar de necessitar de rapidez se pretender ser justa, necessita de tempo para que haja distanciamento, uma vez que não se deve ser juiz em causa própria. E na própria causa a culpa ofusca qualquer razão.
Ainda que digam que o silêncio é preferível a proferir palavras sem sentido, mas como armas, para mim o silêncio não é de ouro. Ou ficaria rico após cada fracasso, motivando-me para projectar o próximo.
Entretanto, quando nada mais há para conversar, não há maior, e ao mesmo tempo mais justa, punição do que a ausência e respectivo silêncio.